O capítulo de uma olhada
Continuação direta de Lucas 22:39-71, que terminou com o conselho decidindo que não precisava de mais testemunho. Agora o caso sai da esfera religiosa e entra na política.
A acusação começa com uma mentira documentada
No versículo 2 eles apresentam três acusações a Pilatos: que ele subverte a nação, que proíbe pagar tributo a César e que se diz rei.
Não é um mal-entendido. É a mesma gente, o mesmo assunto, poucos dias depois.
E repare na tradução que eles fizeram da acusação. Diante do conselho religioso, a pergunta era se ele era o Cristo. Diante do governador romano, isso virou rei, porque blasfêmia não é crime em Roma, mas rei concorrente é. Souberam trocar a palavra pela palavra que mata.
Dois julgadores, nenhuma condenação (1-12)
Pilatos pergunta, ouve e dá o veredito do versículo 4: não acha culpa nenhuma naquele homem. Quando descobre que Jesus é galileu, manda-o para Herodes, que estava em Jerusalém.
A cena com Herodes só existe em Lucas, e é das mais tristes do Evangelho. Herodes estava contente, porque havia muito queria ver Jesus e esperava ver algum sinal. Faz muitas perguntas. E Jesus não responde nada.
A diferença é o motivo da pergunta. Herodes não queria entender nem julgar: queria assistir. Para quem transforma o sagrado em espetáculo, não há resposta a dar.
Herodes também não o condena. Veste-o com uma roupa esplêndida, para rir, e devolve. E aí Lucas solta uma frase de uma ironia pesadíssima no versículo 12: naquele mesmo dia Pilatos e Herodes se tornaram amigos, pois antes viviam inimizados.
A sentença que o povo escolheu (13-25)
Pilatos reúne os chefes e o povo e faz um resumo honesto: eu examinei, não achei culpa, Herodes também não achou, nada que mereça morte foi feito por ele. Propõe castigá-lo e soltá-lo.
A multidão pede Barrabás, que Lucas descreve sem suavizar: estava preso por causa de uma revolta na cidade e por homicídio. Pilatos insiste mais duas vezes e o texto marca a terceira recusa. No fim, o versículo 25 fecha com uma frase terrível: entregou Jesus à vontade deles.
| Quem | Onde | O que diz |
|---|---|---|
| Pilatos | v. 4 | não acho culpa alguma neste homem |
| Pilatos | vv. 14-15 | nem eu nem Herodes achamos coisa alguma |
| Pilatos | v. 22 | pela terceira vez: que mal fez ele? |
| O condenado ao lado | v. 41 | este nenhum mal fez |
| O centurião | v. 47 | verdadeiramente este homem era justo |
O caminho, e um aviso dirigido às mulheres (26-31)
Pegam Simão, de Cirene, que vinha do campo, e põem a cruz sobre ele para que a levasse atrás de Jesus. Simão não se ofereceu e não foi consultado. Ele só estava passando.
Atrás vem muita gente, e mulheres que batiam no peito e o lamentavam. E Jesus se vira e diz a frase que só Lucas registra: não choreis por mim, chorai por vós mesmas e por vossos filhos. Vêm dias, ele diz, em que chamarão felizes as estéreis, e pedirão aos montes que caiam sobre eles. E fecha: se ao madeiro verde fazem isto, que será do seco?
E o provérbio do final é duro e claro: se é isto que se faz com a lenha verde, que ainda tem vida, imagine o que o fogo faz com a seca. Se a injustiça chega a este ponto num tempo em que ainda há alguma seiva, o que virá quando não houver nenhuma?
Ver Lucas 21:1-24, sobre o cerco anunciado, e a leitura de destruição, regeneração e reconstrução
A cruz, e a primeira palavra (32-38)
Levam com ele dois malfeitores, e o crucificam no lugar chamado Caveira. E então vem a primeira das três frases que Lucas guarda sozinho: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.
A primeira: o perdão vem antes de qualquer pedido de desculpas. Ninguém ali se arrependeu, ninguém pediu nada. Ele não espera a mudança do outro para perdoar.
A segunda, e esta é a que a Doutrina desenvolve: o motivo alegado é a ignorância. Não é "perdoa porque eles são bons", é "perdoa porque eles não sabem". O mal, na compreensão espírita, é antes de tudo atraso e desconhecimento. Quem compreende não faz. Quem faz, ainda não compreendeu.
Em volta, três zombarias em escada: os chefes zombam, os soldados zombam, e depois um dos crucificados também. A ironia é sempre a mesma: salve-se a si mesmo. A única coisa que ele poderia fazer e não fez.
Os dois condenados (39-43)
Esta cena existe só em Lucas, e é uma das mais importantes do Evangelho para quem estuda a Doutrina. Dois homens morrendo da mesma morte, ao lado da mesma pessoa, e reagindo de maneira oposta.
Olhe o pedido dele com atenção, porque ele é pequeno de propósito: lembra-te de mim quando entrares no teu reino. Não pede para descer da cruz. Não pede para escapar da pena. Aceita a consequência do que fez e pede só para não ser esquecido.
Para a leitura espírita isto é muito preciso. O que mudou de um lado para o outro da cruz não foi a pena, foi o estado interior. O homem continuou morrendo ali, no mesmo horário, do mesmo jeito. O que se alterou na hora foi a condição espiritual com que ele ia chegar do outro lado.
Três coisas que esta cena ensina, e uma que ela não ensina
- Nunca é tarde. A última hora ainda conta. Não existe ponto a partir do qual a mudança sincera deixa de valer.
- O reconhecimento é a porta. Os dois estavam na mesma situação; o que se abriu foi o que admitiu a própria responsabilidade. Enquanto a culpa é sempre do outro, não há por onde começar.
- "Paraíso" é condição, não endereço. Na compreensão espírita, o que ele recebe é um estado de paz e de amparo imediato, e não a entrada num lugar fechado onde tudo termina.
- O que a cena não ensina: que o arrependimento apaga o que foi feito e dispensa o reparo. Ele mesmo diz que estava recebendo o que merecia, e a Doutrina é inteira construída sobre a reparação que continua. O que muda na hora é o rumo, não a conta.
Ver Perdão, e O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. X, sobre o perdão das ofensas
A morte, e a última palavra (44-49)
Trevas sobre a terra da hora sexta até a nona. O véu do santuário se rasga pelo meio. E então a frase final, que em Lucas é diferente da dos outros evangelhos: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.
| Evangelho | Última frase na cruz | O tom |
|---|---|---|
| Mateus e Marcos | Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? | o grito do abandono |
| Lucas | Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito | a entrega serena |
| João | Está consumado | a obra concluída |
Não são versões concorrentes de uma frase só: são escolhas de cada autor sobre o que daquela hora precisava ser transmitido. E Lucas, que é o evangelista da misericórdia, fecha o seu Jesus exatamente como o abriu: confiando.
O centurião, que era o profissional da execução e tinha visto muita gente morrer, diz: este homem era justo. E a multidão que tinha vindo ver o espetáculo volta para casa batendo no peito. Chegaram para assistir e saíram diferentes.
O homem que não consentiu (50-56)
José de Arimateia aparece com uma apresentação cuidadosa de Lucas: homem bom e justo, membro do conselho, que não tinha concordado com o plano nem com o que fizeram. Ele pede o corpo, baixa da cruz, envolve em um lençol e põe num sepulcro onde ninguém ainda havia sido posto.
Não há registro de discurso dele, de protesto público, de ruptura escandalosa. Há o registro de que não assinou embaixo, e de que, quando ninguém mais queria se aproximar do corpo, foi ele quem foi pedir. A coragem que o Evangelho premia aqui é silenciosa e prática.
E o capítulo termina com as mulheres da Galileia, que acompanharam, viram onde foi posto, voltaram e prepararam os perfumes. Então repousaram no sábado, conforme o mandamento.
É um final discreto e muito humano: o que elas podiam fazer, fizeram; o que não podiam, esperaram para fazer. A fidelidade delas não precisou de nenhum gesto grandioso, só de voltar no dia seguinte, que é o começo do capítulo 24.
O que só Lucas conta
Vale o quadro, porque é ele que dá a cor própria do capítulo. Tudo o que está nesta lista some se você ler a Paixão em Mateus ou Marcos.
| Versículos | O que é | Por que importa |
|---|---|---|
| 6-12 | o julgamento diante de Herodes | o silêncio diante de quem só quer espetáculo, e a amizade nascida de um desafeto comum |
| 27-31 | as filhas de Jerusalém | ele consola quem chora por ele, e aponta para a cidade |
| 34 | Pai, perdoa-lhes | o perdão antes do pedido, fundado na ignorância |
| 39-43 | o diálogo com o condenado | arrependimento sincero muda o estado na hora |
| 46 | nas tuas mãos entrego o meu espírito | a morte como entrega, não como abandono |
| 47 | o centurião diz "justo" | em Mateus e Marcos ele diz "Filho de Deus"; Lucas escolhe a palavra do tribunal, e fecha o processo |
| 48 | a multidão batendo no peito | a plateia que vai embora mudada |
| 51 | José não consentiu no conselho | é possível ser íntegro dentro de uma estrutura que erra |
O que a Doutrina lê neste capítulo
O mal é ignorância, e por isso há perdão
"Não sabem o que fazem" é a base de toda a compreensão espírita sobre o ofensor. Quem fere está atrasado na compreensão, e o que ele precisa é de esclarecimento e de tempo, não do nosso revide. Isso não transforma o erro em acerto nem dispensa a reparação, mas tira do ofendido o peso de ter que odiar.
Ver O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. X, sobre perdoar as ofensas, e cap. XII, sobre amar os inimigos
A sobrevivência do espírito
"Nas tuas mãos entrego o meu espírito" e "hoje estarás comigo" estão no mesmo capítulo e a poucos versículos de distância. Os dois dizem a mesma coisa de ângulos diferentes: a vida não termina na cruz de ninguém, e o encontro marcado para "hoje" pressupõe alguém ainda inteiro para comparecer.
A prova aceita
A zombaria repetida três vezes é sempre a mesma proposta: desça daí. Era possível, e ele não desce. Fecha o arco que começou no Monte das Oliveiras em Lucas 22, com o "não se faça a minha vontade". A prova que a gente escolhe carregar é a única que ensina alguma coisa.
A consciência coletiva não substitui a individual
Ninguém naquele tribunal estava sozinho. Pilatos tinha a multidão, os chefes tinham o conselho, os soldados tinham a ordem. Só José de Arimateia estava sozinho, e foi o único que agiu direito. A responsabilidade é sempre individual, mesmo quando o erro é de todo mundo.
O que eu levo deste capítulo
E a frase que fica de tudo: cinco pessoas disseram que ele era inocente, e nenhuma delas o salvou. Só uma pediu para ser lembrada, e essa saiu ganhando.
Fontes
- Lucas 23, capítulo completo, na tradução de João Ferreira de Almeida. Paralelos conferidos em Mateus 27, Marcos 15 e João 18-19.
- Sobre Lucas 23:34a, a frase do perdão: ausente em parte dos manuscritos antigos, presente na tradição textual que chega às traduções de uso corrente.
- A acusação falsa sobre o tributo se confere em Lucas 20:20-26, onde a resposta dele é registrada por escrito dias antes.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. X, sobre o perdão das ofensas; cap. XII, sobre amar os inimigos; cap. V, sobre as aflições e as provas.
- Estudos da série: Lucas 20, Lucas 21:1-24, Lucas 21:24-38 e Lucas 22:39-71. Relacionados: Perdão e Sentimentos.
Estudo pessoal. Interpretação doutrinária e dado histórico estão separados de propósito: onde eu concluo, está escrito que sou eu.